quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Se cuida, Chapa. Novo clipe de Emicida

João de Carvalho

Vamos começar pela constatação de que vivemos uma guerra, ok!? 
São índices de guerra mesmo, com mortes diárias.
No RAP é comum, por exemplo, a metáfora da geografia local - periferia - com a Faixa de Gaza.
Se você ainda não se convenceu disso eu sugiro que vc escute a fala do Eduardo, um MC muito importante dentro do hip-hop. Vê o que ele fala aqui: Suburbano Entrevista.

E nesse ritmo de um lançamento áudio-visual por mês, justamente ontem, no fatídico dia 31 de agosto de 2016, Emicida lançou sua homenagem às Mães de Maio.


Certo, ocorre uma guerra em nosso país, mas é difícil de perceber que ela existe pois não é uma guerra comum, daquele tipo que se aprende na história. Essa guerra daqui é maquiada, camuflada, e as bandeiras muitas vezes se confundem.
É importante dizer isso pois esse é o contexto do novo clipe do Emicida: um cenário de guerra camuflada.
Confiram o novo clipe aqui: Chapa



Existe um mote dentro do hip-hop que é "se a história é nossa, deixa que nóis escreve...". Emicida vem trabalhando muito bem nesse sentido, e quase todo clipe que ele lance vem acompanhado de um mini documentário, de modo que o público sempre pode se aprofundar de cara na escuta e compreender melhor várias questões. Foi assim com o clipe de Boas Esperança, que saiu já acompanhado de um mini documentário contando sobre a construção do enredo e as vivências na ocupação Mauá. Como vocês viram, no clipe de Chapa, o vídeo traz a questão das consequências dessa guerra real, cujo alvo é a pele negra, no relato da Mães de Maio. Emicida lançou no mesmo dia, pelo portal Jornalismo Periférico, uma entrevista sobre o lançamento do clipe. Assistam aqui: Chapa pode ser qualquer um de nós


Chapa é uma canção do último disco do rapper paulista Emicida. O álbum é um projeto que envolveu uma viagem para três países da África e problematiza a questão da escravidão em nosso país. O primeiro vídeo que lançado como divulgação do álbum foi Mufete, uma canção sobre as periferias africanas. O segundo foi o bombástico Boa Esperança, onde o MC apresenta uma rebelião de empregadas domésticas. O terceiro foi a doce Passarinhos, onde o clipe sugere um banditismo literário, em que jovens roubam livros de sebos. O quinto foi o clipe de Mãe, um novo diálogo cancional entre Emicida e dona Jacira (o primeiro foi na lapidar Crisântemo). O sexto foi o clipe de Madagascar, onde entramos no sonho de um empacotador de mercado. E nesse ritmo de um lançamento áudio-visual por mês (!!!), justamente ontem, no fatídico dia 31 de agosto de 2016, Emicida lançou sua homenagem às Mães de Maio.

Pra mim o recado a mensagem bateu de cara assim, como uma sincronicidade da rede, se cuida, Chapa.
Infelizmente a guerra vai esquentar.


  

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Elza Soares: uma mulher brasileira

Luana Gomyde
Colaboração: João Vitor Nakao



Escutar “Benedita” é mergulhar na densidade da história de uma transexual por meio dos vários aspectos musicais interligados e muito bem pontuados. A canção foi composta por Celso Sim e Pepê Mata Machado para a intérprete Elza Soares e faz parte do álbum “A Mulher do Fim do Mundo”, lançado em 2015 pela cantora. O clima da música e, consequentemente, da história de Benedita é estabelecido pelo arranjo que conta com guitarras distorcidas e metais.
Logo no início, conhecemos Benedito e sua força de vida: “esse nêgo que quebra o quebranto”, “filho certo de tudo que é santo”. Também, percebemos os obstáculos que precisa enfrentar: “Benedito é fera ferida”, “traz na carne uma bala perdida”. Nessa parte da letra, guitarra e bateria alternam riffs melódicos e ostinatos percussivos, confirmando a persistência de Benedito. Aos poucos, as células repetitivas parecem querer desmanchar, porém nunca completamente.
Então, uma pausa brevíssima. Agora a música soa mais fluida, possui mais gingado e os metais surgem com melodias que parecem flutuar sobre a cama criada pelos demais instrumentos. Somos apresentados à Benedita: malemolente e malandra, mas corajosa e guerreira – “ela leva o cartucho na teta”, “ela abre a navalha na boca”. A partir da apresentação completa de Benedito/Benedita, o arranjo se densifica, como se caminhasse para seu clímax. A letra nos revela a violência da polícia, uma milícia, e tensiona o momento do ataque: ela se prepara. Nesse ponto, é feito um trocadilho interessante com as palavras crack e craque, pois Benedita é craque – lutadora, viva, vencedora – e convive com o crack – drogas, destruição, miséria.
Em um terceiro segmento, pode-se notar mais uma mudança de clima, dessa vez proposta pela melodia das vozes. Todas as dualidades de Benedito/Benedita são expostas: é homicida, suicida, aparecida, bendita, maldita, senhora – apavora! Os adjetivos empregados fazem, também, alusão à Nossa Senhora Aparecida, ícone religioso tipicamente brasileiro.
Nesse momento, outra intertextualidade marcante na canção é ressaltada: Benedita molda-se à imagem e semelhança de Geni, prostituta protagonista da música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque. Benedita e Geni sofrem o mesmo descaso, estão à margem da sociedade, sempre julgadas e sem direito de resposta. Ainda, ambas representam a dualidade mais básica do homem em um mundo regido pelo jogo de interesses, o ser mau ou bom: “maldita Geni”, “bendita Geni”. A referência à personagem, presente na música toda e em seu contexto simbólico, fica estancada no verso “crack agora, não demora, joga a pedra, nessa hora”, que remete imediatamente ao bordão “joga pedra na Geni” da canção de Chico Buarque.
Finalmente, comprovando mais uma vez sua resistência, ela “vem armada, não rendida, faz do beco sacristia”. Um instante caótico se instaura na música e, quando imaginamos ser o fim da canção, uma última surpresa: a volta do início, que adquire um novo significado por conhecermos a história de Benedita agora. Ainda, outro aspecto importante para a construção da música é a contraposição e a transmutação das vozes de Elza Soares e Celso Sim.
De forma sintetizada, “Benedita” é uma excelente opção para tratarmos das questões de gênero, cada vez mais presentes em nossa sociedade. Cruamente e sem lirismos, pode-se refletir sobre os obstáculos enfrentados pelas pessoas que decidem assumir essa transformação em suas vidas. Importantes valores como liberdade, respeito e diversidade emanam da composição, acrescidos, ainda, das temáticas da violência, da miséria e das desigualdades sociais e econômicas.

***

Benedita” faz parte do conjunto de onze faixas inéditas que compõem o álbum “A Mulher do Fim do Mundo” de forma instigante e inspiradora. O CD é um passeio pelos círculos do inferno de hoje e conta com as concepções de diversos músicos extremamente ativos no cenário musical paulistano atual: Guilherme Kastrup, Celso Sim, Romulo Froés, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Thiago França, Marcelo Cabral e os músicos da banda Bexiga 70 – Cuca Ferreira, Daniel Gralha, Daniel Nogueira e Douglas Antunes. O resultado apresentado no álbum é fruto da idealização de criações artísticas, desses músicos, destinadas a Elza Soares e sua irreverência.


Em convergência com as considerações de Kiko Dinucci em seu texto “Caminhos da polifonia contemporânea”, vale salientar que, assim como a “polifonia cacofônica de São Paulo”, o álbum “A Mulher do Fim do Mundo” resgata os sons das ruas – a paisagem sonora dos grandes centros urbanos – de uma forma esteticamente enérgica e permite encontrar a beleza que floresce dos aparentes defeitos.
Coração do Mar”, de José Miguel Wisnik, com letra de Oswald de Andrade, é à capela: nas sombras, a voz de Elza Soares ilumina o início dessa jornada náutica. Em sequência, “Mulher do Fim do Mundo”, de Romulo Fróes e Alice Coutinho, traz a cantora como narradora do apocalipse: a desintegração ocorre durante o carnaval – a pele preta, a voz e o resto espatifados na avenida. Elza resiste, pede que a deixem “cantar até o fim”, e as notas longas da melodia traduzem perfeitamente o cansaço e a persistência.
Maria da Vila Matilde”, de Douglas Germano, trata da violência doméstica: “cadê meu celular, eu vou ligar pro 180”, “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Distorções sonoras se misturam à melodia e samba, rock e rap se integram. Também, em "Luz Vermelha", de Kiko Dinucci e Clima, rap e punk rock são sobrepostos e o apocalipse é recortado em cenas de periferia, tiroteio e ruas esvaziadas. A favela torna-se o cenário do fim do mundo e do Brasil e, ao mesmo tempo, o lugar de onde pode ser reconstruído. A reação perante a destruição é a chance de um renascer das cinzas.
A canção “Pra Fuder”, de Kiko Dinucci, é um samba rápido em que o tesão é cantado sem frescura e alardeado pelo naipe de metais. Em “Firmeza?!”, Rodrigo Campos cria mantras a partir de gírias talvez pertencentes aos arredores de seu cotidiano. Angústia e fraternidade pincelam a música, gravada em duo com o autor.
O tango “Dança”, de Cacá Machado e Romulo Fróes, se situa depois do fim: a narradora está morta; quase pó, insiste em dançar. Elza não desiste. O oriente chega por meio da sonoridade e da letra de “O Canal”, de Rodrigo Campos, e seu arranjo segue no ritmo da caminhada feita em busca de algo, do renascer.
Em “Solto”, de Marcelo Cabral e Clima, como o título e as notas soltas indicam, a travessia é solitária, sem nada mais. Não há guitarras ou distorções, as quais voltam no início de “Comigo”, de Romulo Fróes e Alberto Tassinari. O crescendo ruidoso estanca de repente e Elza ressurge à capela, em tom de oração, de lamento sertanejo: “levo minha mãe comigo, pois deu-me seu próprio ser”. Então, um longo silêncio do fim de tudo. Porém, sua voz permanece ao fundo... Elza insiste!

***


Como falar de “A Mulher do Fim do Mundo” e não pensar na trajetória de vida de Elza Soares? Mulher, negra, nascida em uma comunidade pobre do Rio de Janeiro: Elza é a representação da minoria. Para além de sua voz rouca única, a cantora é conhecida por quebrar paradigmas, pois sabe o que é discriminação. Elza Soares tornou-se um ícone para o Brasil.
Sua voz misturou muito jazz e samba desde seus 13 anos e rendeu gravações com grandes nomes da música brasileira, como Roberto Ribeiro, Wilson das Neves e Milton Nascimento. Segundo Ronaldo Bôscoli, é a “bossa negra”. Na década de 80, estreou no cenário pop: sempre contemporânea, feliz e coerente na escolha de repertórios. Elza passeia tranquila em qualquer território com seu timbre especial e o balanço que faz sua voz soar como um instrumento. Uma artista que vive seu tempo e não envelhece. Uma mulher que sacode a poeira, levanta e dá a volta por cima.


Referências

VIANNA, Luiz Fernando. Elza Soares renasce das cinzas com seu já histórico novo disco. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/10/1689464-elza-soares-renasce-das-cinzas-com-seu-ja-historico-novo-disco.shtml>. Acesso em: 23 fev. 2016.

PALUMBO, Patrícia. Elza Soares é foda! Disponível em: <http://elzasoares.com.br/elzasoares/biografia/>. Acesso em: 23 fev. 2016.

Elza do Brasil. Disponível em: <http://elzasoares.com.br/elzasoares/post-2/>. Acesso em: 23 fev. 2016.

Informações sobre o álbum “A Mulher do Fim do Mundo”. Disponível em: <http://www.amulherdofimdomundo.com/>. Acesso em: 28 fev. 2016.

DINUCCI, Kiko. Caminhos da polifonia contemporânea. Disponível em: <http://outroscriticos.com/caminhos-da-polifonia-contemporanea/>. Acesso em: 25 ago. 2016.

sábado, 28 de maio de 2016

MM3, Metá Metá 2016

João de Carvalho

Imagem criada e disponibilizada por Kiko Dinucci
"Primeiramente, Fora Temer!"

Ontem saiu o novo disco do Metá Metá: MM3.
É mais um registro ao vivo, pois essa é desde o início uma das propostas do grupo.
São os 3 (Kiko, Thiago e Juçara) mais o Marcelo Cabral (baixo) e o Sérgio Machado (bateria).
Num exercício de desprendimento (na aceitação dos erros) em 3 dias de estúdio.

O resultado, como era esperado, ficou visceral.
Mas mais do que isso, é um disco de luta, de resistência cultural.
Ano passado conversei com eles aqui em Londrina.
Na entrevista ficou nítido como o posicionamento religioso deles
é também um posicionamento político. O Thiago França disse:
"quando você não esconde o que você é, isso já é um ato político".

Pois bem, acontece que o golpe que foi dado na democracia brasileira
utilizando-se da maquinaria midiática tradicionalmente manipuladora
foi forjado por gente que não tolera a diversidade cultural e religiosa.
Neste contexto o disco do Metá Metá é uma afronta direta aos valores fascistas
que crescem à todo vapor em nosso tempo, em volta de nós.

São nove canções novas. E diferente dos outros dois discos
onde as canções já existiam e foram arranjadas pelo trio
agora elas foram compostas desde o início entre eles.
O disco abre com Três Amigos, com participação de Rodrigo Campos na composição
mais a Juçara e o Sérgio. O texto é aberto e agressivo
como uma carta de apresentação da banda, e do disco.
Uma canção pra por "os bico em choque".
Quase um aviso do tipo "quem não entende que saia assustado... ou fica suave".
 Angoulême, a segunda faixa, vem no mesmo encalço, com texto aberto e agressivo
sonoridade agitada e surpreendente. A terceira canção do disco é
A Imagem do Amor, outra pedrada. A anti-balada do disco
que grita "a imagem do amor não é pra qualquer um"!
Faz lembrar a lenda de Iansã, uma mulher em forma de búfalo
mas que poucos podem ter o privilégio de vê-la em forma de mulher
como uma das ilustrações que acompanham o disco.


 Sempre comparo Kiko Dinucci à Dorival Caymmi
tanto por seu talento como artista plástico como pelo
uso da mitologia do candomblé, gerando
canções mágicas (mágicas conforme Edgar Morin).
Mano Leguá, a quarta faixa do disco, nos conecta com Exú,
Orixá mal compreendido e chamados pelos perseguidores
de Diabo. Kiko inclusive já produziu um documentário
sobre este orixá fundamental dentro da cultura do candomblé. 
Angolana é a canção que mais explicitamente reflete as experiências
da viagem que o grupo fez à África, no ano passado.
O sax de Thiago França incorpora sonoridades da música do oriente médio
o que amplia o lugar comum de imaginar a música africana principalmente rítmica.
Em Corpo Vão, a quinta faixa, temos novamente uma canção subversiva
com um final cheio de energia ideal pra fazer o público dos shows baterem cabeça.
A sexta faixa é inteiramente cantada em iorubá . No arquivo de PDF com as letras,
que vem compactado junto com as faixas do disco, podemos ler a tradução da letra.
Osanyin é um canto pra Ossaim, o senhor das matas, dono das ervas
um canto ideal para a mentalização positiva no preparo de chás e banhos.
 

A penúltima canção do disco é uma parceria com Siba.
Toque Certeiro é mais que uma canção de desencontro amoroso.
É o desencontro de quem não tem parada certa.
Meu Balão Vai Voar, a última faixa do último disco do Siba - 
disco que Dinucci participa na linda O Inimigo Dorme
caracteriza um "cigano peregrino, que desconhece o lar".
Voltando à canção do Metá Metá, apesar de todo o desencontro
ela acaba afirmativa: "toque certeiro pra onde apontar".
Lembra-me muito a sabedoria contida em outra canção de Siba 
Pra finalizar a escuta do álbum MM3 temos Oba Koso, um canto pra Xangô
o rei da justiça. Uma faixa de 9 minutos com texto curto,
como outras canções do Metá Metá, praticamente um mantra.
Um mantra que prepara a alma pra guerra.
 




quinta-feira, 26 de maio de 2016

Elza Soares e a violência contra a mulher no caos do país.

João de Carvalho


Está mais do que evidente que o golpe que efetuaram contra a democracia no Brasil possui uma natureza extremamente machista. Do preconceito linguístico (que nunca aceitou a expressão presidenta) aos comentários difamatórios (que chegou ao absurdo de produzir adesivos para carros, sugerindo o estupro de Dilma pela bomba de combustível), estava mais que evidente que o seria um golpe contra todas as mulheres. Não é surpresa a ausência de mulheres e negros no quadro deste governo ilegítimo. 

Mas ainda assim a vida vem e nos choca com mais absurdos. Ontem Alexandre Frota esteve com o novo ministro da Educação, APRESENTANDO PROPOSTAS para o novo governo! Você pode dizer que as propostas eram absurdas mesmo, e com certeza foram engavetadas. Mas o absurdo é ele ser recebido. Se qualquer um de nós, trabalhadores sérios da educação, quiséssemos este encontro será que teríamos? É claro que não é simples assim. Não sejamos ingênuos, como alguém como Alexandre Frota, que já confessou em uma entrevista (e confessou com orgulho) ter estuprado uma mãe de santo, como alguém assim consegue um encontro desses? Alexandre Frota é um personagem tão execrável que qualquer um que realmente se preocupa com a Educação em nosso país deve reconhecer o completo absurdo deste fato. 

E como se não bastasse acordo nesta quinta feira de Corpus Christi e vejo a notícia sobre a moça que foi estuprada por trinta homens, que filmaram e compartilharam o filme na rede. Me faltam palavras para este absurdo. Gostaria de compartilhar a leitura do texto TRINTA HOMENS, de Luara Colpa. Leiam.

Como busco acolho e compreensão nas canções escutar o disco da Elza Soares foi o que me restou.



Maria da Vila Matilde, composição de Douglas Germano, é a terceira canção do disco da Elza. O caso da moça que foi violentada por trinta homens é ainda mais estarrecedor quando percebemos que ele é apenas um dos milhares casos de agressões que o machismo impinge contra as mulheres diariamente, em seus muitos níveis, dos mais estarrecedores aos mais sutis. Como homem em processo de (eterna) reeducação, me sinto com uma profunda vergonha das minhas heranças machistas. Cantar junto com a Elza Soares ajuda-me muito nesse processo, lembra-me da importância da continuidade no avanço da desconstrução machista em nosso mundo, e no bizarro caso ocorrido, reforça-me a cede de justiça contra TODOS os CANALHAS que abusaram da moça.

Maria da Vila Matilde (Porque se a da Penha é brava, imagine a da Vila Matilde)
Douglas Germano

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

E quando tua mãe ligar
Eu capricho no esculacho
Digo que é mimado
Que é cheio de dengo
Mal acostumado
Tem nada no quengo
Deita, vira e dorme rapidim
Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Do flow à melodia: Obrigado, Darcy.

João de Carvalho
Darcy Ribeiro dando a letra.

Semana passada, dia 19/05/2016, Fioti lançou o segundo clipe de seu álbum de estréia, o EP Gente Bonita. Ele, que é o irmão que largou o emprego no MC'Donalds e investiu seu acerto de contas na primeira mixtaipe de Emicida, fundando assim a poderosa Laboratório Fantasma, já acenava que chegaria o momento de lançar seu próprio trabalho. Mas não se trata de um disco de RAP e sim de um disco de MPB. 

Seu novo lançamento é a releitura de um RAP de seu irmão em homenagem ao antropólogo Darcy Ribeiro (importante, entre outras coisas, por estudos de revalorização da importância dos índios na formação nacional). A canção original foi lançada em 12 de março de 2014. No trabalho matriz, parceria de Emicida com Rael, os rappers resgatam a memória do importante intelectual brasileiro, ainda pouco conhecido entre o público de rap nacional (déficit decorrente da distância entre o conhecimento acadêmico e as população das periferias). Dá um confere na original clicando aqui.

Mais de dois anos depois e a consciência que este trabalho busca despertar - só pra lembrar, a consciência é o 5º elemento do hip-hop - é ainda mais urgente do que antes. Se tal consciência estivesse ativa nunca teríamos sofrido o golpe que arrancou a presidenta eleita democraticamente com o absurdo argumento de combate à corrupção. Mano Brown disse que viu "a periferia virar as costas pra Dilma", e revelou-se todo fracasso do hip-hop.

Eis que neste novo lançamento temos a voz de Caetano Veloso lendo Darcy Ribeiro assumindo-se, de maneira bela e emocionante, um grande fracassado. 

"Fracassei em tudo o que tentei na vida. 
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. 
Tentei salvar os índios, não consegui. 
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. 
Tentei fazer o Brasil  desenvolver-se autonomamente e fracassei. 
Mas os fracassos são minhas vitórias. 
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"

A leitura de Caetano Veloso, inclusive, me lembra muito apropriadamente as inflexões entoativas de sua canção/RAP, O Herói, em que o compositor tropicalista elegantemente discorda do pai do Chico Buarque (Sérgio Buarque de Holanda) e seu homem cordial, apresentando uma espécie de traficante do morro como sendo o herói que veio para afirmar a democracia racial. 

Assistam ao lindo clipe da nova versão antes de prosseguirmos.



Obrigado, Darcy! (O Brasil que vai além)
Emicida e Rael
Calo nas mãos, bola nos pés
Banzo ou não, diz quem tu és
Arranha-céus ou igarapés
Força de bateria nota 10
Ao olho alheio, trem sem freio, viu
É um coração cheio, um estômago vazio
É a bunda da mulata ou é um moleque de fuzil
Paixões e contradições mil
Sou do Cristo do Rio, riso efêmero
Pô, qual tua cor? Valor? Qual teu gênero?
Se descer sem sambar, eles tremerão
Com roteiro de inspirar James Cameron
Terra de Vera Cruz, luz, berço da vida
Os vilão que é do bem, dos heróis genocidas
Sonho de paz, outros Carnavais
Sou um povo que tem como seu maior bem
Gritar gol

Do Oiapoque ao Chui é isso que eu sou
Mistura de Tupi com sangue de nagô
Recantos de Zumbi batuque de tambor
Brasil é isso aí! em todo canto, por onde for

E o que resta pra nós, forca ou amor?
Força do tambor de pele, de chumbo
Seja como for, livre ou no jumbo
Raiz fica no riso dos pobres da cidade mais rica
Eu vou pintar o rosto e a rua, igual criança 
Pura catar a única esperança
A alegria na fita, o impasse
Batuque na marmita, apatia na face
Vem ver onde o samba nasce

Ladeira, entender o segredo da capoeira
Na luta e na dança, luta a cada round
Nocautes e nocautes nossos
Que a TV não aplaude
Somos reis undergroud, matéria prima
Macunaíma, no peito da América Latina
Hi-tech de terreiro
O sonho de Darcy Ribeiro
Dorme em cada brasileiro


Como o título deste post sugere, minha observação central vai para o processo de releitura ocorrido, onde o elemento musical flow é transformado em melodia. Flow é o principal aspecto da musicalidade de um MC. Flow é a música das palavras. Uma forma mais específica de melopéia. Uma mistura de ritmo, rimas, vocalidade e proto-melodias. MC usa mais os sons da boca, o que enfatiza mais as consoantes, que são os ataques dos sons. Consoantes são pequenos "ruídos" que articulam os timbres das vogais. Um cantor, em contrapartida, dá atenção especial à garganta, que sustentará as vogais entoando melodias (sons de altura definida).

Essa é a principal mudança que Fioti faz na composição de seu mano. A obra de 2014 é mais áspera. Mais ruidosa e ritmada. Mais agressiva. Esta nova versão é mais suave não só por conta da instrumentação, mas sobretudo à transformação do RAP original em uma canção mais doce (apesar da parte falada do final), com uma clara melodia de perfis descendentes que nunca estoura. Nesse processo algumas belezas e forças se perdem e outras se ganham.

O clipe, que é parte integrante desta versão (inclusive a fala do Caetano só tem no clipe) é composto também por uma sequência expressiva de imagens. O trabalho se alinha à proposta da Lab_Fantasma de valorização da cultura afrodescendente. São imagens de negros (e negras) fortes. Corpos bonitos. Mas existe algo diferente entre os exemplos. A imagem de capoeiristas como símbolo de resistência já é comum. A de uma negra com roupa de baiana também. Porém a imagem de uma médica negra é coisa nova.

Lembrando da fala do Brown que eu citei no começo, penso que ainda é preciso frisar que esta imagem, e toda a simbologia que ela traz consigo, só é possível por conta de programas criados na gestão do PT. O governo ilegítimo que tomou de assalto a presidência começou tentando extinguir o Ministério da Cultura (MINC), o que gerou grande mobilização entre os intelectuais e artistas por todo o Brasil.

No dia seguinte ao lançamento do clipe de Fioti, Caetano Veloso fez um show histórico na ocupação do MINC. Com um lindo cocar de penas brancas o compositor cantou, entre outras pérolas de seu repertório, Um Índio.


"E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido óbvio"




sábado, 7 de maio de 2016

Ainda Há Tempo, 10 anos depois

João de Carvalho

Em 2006 Criolo lançou seu primeiro disco, o Ainda Há Tempo. Um clássico, cheio de pérolas que já integraram o repertório de vários shows. Mesmo assim, o disco de 2006 é um disco de rap underground, e longo pros ouvidos atuais (que contam com uma saturação de informação). É um disco anterior à fiel parceria entre Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral. Nesta época seu principal parceiro apoiador era o DJ Dandan. União responsável pela criação da Rinha dos MC's, festa de hip-hop que formou e revelou vários dos principais talentos da nova geração de rappers de São Paulo. Ainda Há Tempo é um disco de um dos manos mais loucos do movimento hip-hop, o Criolo Doido. Dá uma olhada num show dele, na época: Criolo Doido, Live in SP.

Ontem, dia 06/05/2016, Criolo lançou seu terceiro álbum com produção do Ganjaman. Se trata de uma reedição do disco de 2006. Esse lance de regravar o mesmo disco, anos depois, com algumas adaptações, não é algo novo. Caymmi, por exemplo, regravou praticamente seu mesmo disco, voz e violão, em 1954 e 1959 (Canções Praieiras, e Caymmi e Seu Violão). Outro exemplo mais recente, Chico César regravou seu clássico Aos Vivos 16 anos depois. Ainda Há Tempo, 2016, se insere nessa tradição de álbuns revisitados pelos próprios autores. 


O disco abre com É o Teste, canção que traz os versos:

"E a minha mãe que cuida de mim independente da
minha idade,
E quem não tem mamãe, valoriza e tem saudade.
Eu respeito, há como eu respeito,
Amor de mãe não se escreve, aí não tem defeito.
Seria tão bom se a mãe da gente não sofresse,
Não ficasse doente e também não envelhecesse.
É coisa ruim, hoy, a gente até esquece,
As mães que não compreendem os manos que cantam rap."

(Oportuno para a data de lançamento, próximo ao dia das mães.) 

Com a já prevista altíssima qualidade de produção musical, o disco traz oito textos preciosíssimos para os dias atuais. Uma ótima oportunidade pra quem não conhece as canções mais antigas do Criolo se aproximar mais do movimento hip-hop, e pra quem já as conhece, percebê-las de outra forma. E que não passe desapercebido que a atualidade dos textos revela que os problemas que nos afligem são crônicos, e que enquanto não encararmos o rompimento com os ciclos viciados que estruturam nossa sociedade não estaremos minimamente preparados para o vertiginoso desmoronamento de um sistema em colapso, como o que vivenciamos. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mãe, segundo Dona Jacira

João de Carvalho

O Nego Dito Itamar Assumpção já se reportava à uma tradição ancestral de respeito à força das mulheres. Sua canção Mulher Segundo Meu Pai faz parte de um gesto maior (envolvendo outras canções e a valorização de elementos musicais pouco comuns) que busca o desenvolvimento estético de uma nova sensibilidade, menos machista. Na polêmica canção InSOMnia, de 2014, Emicida entoa "quem não liga Itamar Assumpção que ver os milagres do Emicida como?". Começo meu texto traçando esse paralelo para apresentar o novo clipe do rapper paulista: Mãe.


Dentro do hip-hop a figura da mãe é tida como sagrada. Bem como na moral dos campinhos, onde só não pode colocar a mãe no meio, as batalhas de rimas e demais locais onde se manifesta a cultura hip-hop sempre trazem narrativas que valorizam o papel das mães. De fato, o apoio incondicional (que inclusive muitas vezes gera "machos mimados") das mães - quando estas existem - é um dos poucos portos seguros com que a alma de alguém que mora na periferia pode contar.

Dona Jacira, mãe do Emicida e do Fioti, já foi homenageada diversas vezes pelos filhos e também já participou como parceira de outros trabalhos (Jacira e Crisântemo). Neste novo clipe (quarto vídeo do novo disco) ela volta a aparecer, tanto como homenageada como performer de sua própria poesia. Lembremo-nos que ela já havia marcado forte presença no clipe de Boa Esperança, onde vive uma empregada doméstica insurgente. Em Mãe, um quase espelho de Crisântemo (que é uma canção em memória do já falecido pai dos irmãos Leandro e Evandro), Dona Jacira aparece mais uma vez como uma figura forte, capaz de inspirar e servir de exemplo para outras mães.


 O filme de Levi Riera possui uma trama que se sobrepõe à canção, de forma indireta, mas se articula conforme suas partes. O que vemos é um sonho do rapper, que ao final desperta escutando sua própria canção. A "sala principal" desse sonho é uma paisagem bucólica, uma floresta (plantação) de eucalipto, onde o MC vaga, encontrando um piano de brinquedo que dispara a canção. Depois desse encontro com a música, Emicida volta a perambular, até encontrar algumas portas, que acessam lembranças. A canção se divide em duas estrofes que desembocam no refrão (da Anna Tréa, cantora/violonista da banda) antes de concluir com a seção declamada (Spoken Word) da Jacira. Cada estrofe corresponde à uma sequência do filme. A primeira é uma história de opressão dentro de um colégio católico, onde as freiras brigam com uma menina negra por algo que ela estava escrevendo, e como punição colocam a menina para limpar o chão. Emicida está sonhando com uma história de sua mãe.



A segunda porta, que se articula com a segunda estrofe, leva o rapper para seus tempos de garoto. Esta sequencia é bem interessante do ponto de vista formal, pois possui dois espaços opostos: a reunião familiar, em casa, e a balada. O jovem - que é o Emicida moleque - meio que desperta de um encanto (festas vazias de significados) com a voz da mãe, que o chama pra casa.



Na última seção temos a porta que leva Emicida ao encontro de sua mãe, que interpreta seu próprio texto contando sobre o nascimento do rapper. A imagem da mãe funde-se (pela montagem dos planos) à do pianinho de brinquedo. Talvez seja importante lembrar que a palavra música provém de musas. Neste caso, a mãe/musa é mãe/música. E é ainda de se notar como aquela mulher, que vimos como uma criança oprimida e depois como uma dona de casa, também oprimida, surge vertida numa matriarca poderosa no meio da mata.


Depois disso temos Emicida acordando em um quarto espaçoso e com mobília visivelmente mais cara (e uma gracinha meio Harry Potter pra ficar de fundo enquanto passam os créditos). O vídeo saiu estrategicamente para dialogar com a data do dia das mães (este lance de lançar música pra "datas especiais" tá ficando cada vez melhor!). Mas muuuuiiiito além de ser uma homenagem à mãe, este clipe toca em discussões muito profundas e urgentes para o Brasil. Nessa semana em que as escolas preparam e realizam homenagens para as mães, na maioria das vezes partindo de uma construção de maternidade idealizada dentro de modelos judaico-cristãos, temos um momento oportuno para pensarmos questões relacionadas à família. Questões estas que devem ser cada vez mais debatidas e conscientizadas, sendo talvez a única forma de barrar a onda reacionária que cresce em nosso solo e ganha força com o golpe que está em andamento. Retomando a referência que eu havia feito no início ao Itamar, o que Emicida propõe com este novo clipe é uma evidente valorização de sua ancestralidade africana, que assim como no caso do Nego Dito, lança outras luzes e possibilidades para compreendermos a família.

Emicida/ Dona Jacir/ Anna Tréa

Um sorriso no rosto, um aperto no peito
Imposto, imperfeito, tipo encosto, estreito
Banzo, vi tanto por aí
Pranto de canto chorando, fazendo os outro rir
Não esqueci da senhora limpando o chão desses boy cuzão
Tanta humilhação não é vingança, hoje é redenção
Uma vida de mal me quer, não vi fé
Profundo ver o peso do mundo nas costa de uma mulher
Alexandre no presídio, eu pensando no suicídio aos oito anos, moça
De onde cê tirava força?
Orgulhosão de andar com os ladrão, trouxa!
Recitando Malcolm X sem coragem de lavar uma louça
Papo de quadrada, 12, madrugada e pose
As ligação que não fiz tão chamando até hoje
Dos rec no Djose ao hemisfério norte
O sonho é um tempo onde as mina não tenha que ser tão forte

Nossas mãos ainda encaixam certo
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz
A sós nesse mundo incerto
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz

Outra festa, meu bem, tipo Orkut
Mais de mil amigo e não lembro de ninguém
Grunge, Alice in Chains
Onde você vive Lady Gaga ou morre Pepê e Neném
Luta diária, fio da navalha. Marcas? Várias
Senzala, cesárias, cicatrizes
Estrias, varizes, crises
Tipo Lulu, nem sempre é so easy
Pra nós punk é quem amamenta, enquanto enfrenta as guerra, os tanque
As roupas suja, vida sem amaciante
Bomba a todo estante num quadro ao léu
Que é só enquadro e banco dos réu, sem flagrante
Até meu jeito é o dela
Amor cego escutando com o coração a luz do peito dela
Descreve o efeito dela, breve, intenso, imenso
Ao ponto de agradecer até os defeito dela
Esses dias achei na minha caligrafia
A tua letra e as lágrima molha a caneta
Desafia, vai dar mó treta
Quando disser que vi Deus
Ele era uma mulher preta

Nossas mãos ainda encaixam certo
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz
A sós nesse mundo incerto
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóiz

(Onde for, tudo
Tudo eu ouvia nóiz
Onde for)

O terceiro filho nasceu, é homem
Não, ainda é menino
Miguel bebeu por três dias de alegria!
Eu disse que ele viria, nasceu
E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia, filho é pro mundo
Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor nas coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra, sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre e contente parecia dizer
"É sábado gente! "
A freira que o amparou tentava reter
Seus dois pezinhos sem conseguir
E ela dizia: "Mais que menino danado!
Como vai chamar ele mãe? "
Leandro