quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

AMEM: escuta, que o ano ainda não acabou

João de Carvalho

"...do norte que precisa essas crianças
pra não ver graça em seu vilão
2000 anos passou
mas se ainda voltasse
Jesus morria em nossa mão
só que ao invés de cruz põe, então
de menor e moletom
num chão de terra sem culpa nem chance
pra redenção
quantos foi louco de são
quantos ainda vão
cê é louco, não
cabe a mim fazer não ser em vão."
Neto (Síntese), versos de "Lá Maior"

           2016 parece que está insistindo em não terminar. Ano longo, de muita angústia. O cenário, num mapeamento fino, muda o tempo todo. Golpes dentro de golpes. Nossas vidas arrastadas e arrasadas nas correntes da História. E o ano, que muitos pensamos poder encerrar 2015, não dá trégua. E o que é um ano? Um giro astronômico, da terra ao redor do sol, que tb segue seu rumo, indo e girando pelo espaço. E nossas vidas dentro de um ano?


            O Síntese, que começou como uma dupla, hoje é o nome do projeto do rapper Neto.
            Voz do interior de SP, vindo com umas palavras cheias de verdades e tapas na cara.
          Quando escutei seu primeiro disco, "Sem Cortesia", soou-me como um radicalismo do tom profético que já havia me marcado no primeiro disco do Criolo, no "Ainda Há Tempo". É um flow incendiário, fervoroso, como a fala de um fiel. Bate fundo no aspecto religioso do RAP.
         Neste primeiro disco ainda me soava meio esquisito a mistura de esquizofrenia com as narrativas bíblicas. Um quase moralismo, uma ideia meio perigosa do diabo e do mal. Mas, felizmente, o Neto foi muito bem aceito na cena do RAP de São Paulo. Fez uns contatos com os músicos do Metá Metá, que possuem um trabalho religioso/musical muito qualificado ligado ao candomblé. E o Neto participou, brilhando, tb do disco "Convoque Seu Buda, do Criolo", na faixa "Plano de Vôo".
             E quando eu já não esperava que houvesse algum lançamento musical capaz de me resgatar do caos depressivo que anda nosso cotidiano, o Neto vem com palavras de fé. Seu último disco, "Trilha Para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: AMEM", veio redondo. Chegou em um momento necessário pra muitas almas, e com uma maturidade de fundamento e acabamento que certamente fazem desse álbum um clássico da canção brasileira. Um album lindo, emocionante. Inspirador. 



            Não dá pra resumir o monte de ideia que o Neto alinha em seus versos.
            Recomendo muito que se escute, com atenção, lendo todas as letras no liryc/vídeos!



           Gostaria de tecer elogios e observações sobre cada um dos sons, e dos vídeos. Não tenho tempo e vejo que nem precisa muito disso. Vou colocar uns vídeos dele aqui se vc escutar os sons com calma vale mais que ficar lendo o que eu poderia escrever nesse momento, de grandes desilusões.



 

domingo, 6 de novembro de 2016

Cê conhece Patativa do Assaré e Florestan Fernandes?

João de Carvalho

Este blog tem buscado acompanhar de perto as movimentações políticas e culturais por meio de escutas de canções. Em muitos casos a linguagem do RAP tem comparecido com relevo em nossas escutas. Mas devo confessar que a origem cultural deste escrivinhador é a das modas de viola, não a das agulhas e toca discos.

Conheci o nome Florestan Fernandes quando eu era aluno de Iniciação Científica e estudava literatura de cordel. Patativa do Assaré eu já conhecia de criança, com o clássico Vaca Estrela, Boi Fubá. Depois fui conhecer melhor a obra, ler os cordéis e saber sobre sua vida.




 Estes dois nomes vieram à baila por conta de mais um índice de que vivemos um estado de exceção, onde a democracia e o direito de livre pensamento e organização das pessoas vem ruindo vertiginosamente. O Lirinha vc conhece? Foi um nome que tb me chegou por volta da época em que eu fazia IC. Ele era o vocalista da banda Cordel do Fogo Encantado, importante grupo representante da cena manguebeat. Bem, assintam o vídeo com ele falando:


sábado, 5 de novembro de 2016

De Marighella e Mariana: Lembrar é resistir.

João de Carvalho

Ontem foi um dia muito importante dentro das mobilizações de resistência às atrocidades propostas pelo atual governo, ilegítimo e golpista, na cidade de Londrina. Foi nesta primeira sexta feira de novembro, dia 4 do 11 de 2016, que jovens estudantes secundaristas, que antes já haviam ocupado seus colégios, ocuparam a câmara de vereadores, e que jovens estudantes universitários de vários cursos ocuparam a reitoria da Universidade Estadual de Londrina. Enquanto isso a assembleia dos professores, na mesma tarde e instituição, decidia pelo fim da greve e pelo apoio simbólico ao movimento de ocupações dos estudantes, bem como pelo repúdio às ações autoritárias da atual reitora da universidade em relação à ocupação da Rádio UEL FM e a reintegração de posse do colégio de Aplicação. 


A ocupação da Rádio de nossa instituição nos remete instantaneamente à um episódio emblemático da história do Brasil, que foram as transmissões da Rádio Libertadora, e por conseguinte, à figura de Carlos Marighella. Ontem fez 47 anos que Carlos foi assassinado.


Na quarta feira, dia 2, pouco depois da ocupação da Rádio UEL, foi realizada a performance "Procura-se um Corpo" na praça do CECA (centro da universidade que abriga os cursos ocupados). Era dia de finados. No dia seguinte foi realizada uma assembleia de centro, sob os corpos simbólicos de mortos (não encontrados) durante a ditadura.


E se por um acaso vc ainda não assistiu ao documentário sobre nosso maior ícone guerrilheiro, segue o link: Marighella. É importante lembrar que o som dos Racionais foi composto para o filme. 

Ainda nesse clima de dia dos mortos, hoje é dia de lembrar de mais motivos para resistir lutando. Faz um ano que ocorreu o desastre em Mariana. O maior desastre ambiental de nosso país, matando o Rio Doce. Uma tragédia que mostra e tenciona o quanto conseguimos ampliar nossa compreensão sobre o quais são os motivos que nos mobilizam e nos agregam em luta.



É claro que as ocupações não possuem relação direta com o crime ambiental cometido pela Samarco/Vale. Mas uma vez que as ocupações também não obedecem à lógica sindical, de pautas trabalhistas e objetivas, é de fundamental importância percebermos como todo este movimento de resistência tem relação com o enfrentamento ao golpe em sua existência mais horizontal, que é a mentalidade fascista/religiosa que se expande.

Lembrar das mortes de Mariana, fazer parte do coro dos que clamam por justiça, expandir a consciência sobre este incidente, o que passa por ampliar nossa compreensão dos movimentos políticos e nossa readequação de hábitos, tem muita relação com as ocupações. O mesmo vale para a memória de Marighella e demais mortos e desaparecidos durante o regime militar.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Sabotage Imortal: primeiras impressões...

João de Carvalho

O rapper Sabotage é o maior símbolo do RAP nacional. Uma espécie de mártir. E depois de mais de uma década temos mais um disco clássico do maestro do Canão. Nesse momento de várias retomadas do hip-hop nacional - RZO voltou pesado!!!; Criolo relançando o Ainda Há Tempo; Racionais, Eduardo... vários - a voz de Sabotage chega meio que impondo ordem. Quase como a voz inconteste, vinda com a sapiência do além. 



O disco não viria com uma produção qualquer, é claro. E coube ao mestre Daniel Ganjaman assinar mais um disco clássico da música brasileira. Com um domínio apurado das texturas, cortes, tempos e planos que se intercambiam.

Essas são só algumas primeiras impressões...
devo voltar a escrever mais sobre,
mas por hora fica a dica do play.
 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Coração de Estudante: Milton pras Ocupações.

João de Carvalho
 

Coração de Estudante 



Milton Nascimento
Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor, flor e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração
Juventude e fé

O movimento de ocupações se espalha pelo país. Mas esse play de hoje é especial aos meus queridos alunosamigos que ocuparam o prédio do curso de música, no qual me formei e no qual trabalho. Sou um eterno aprendedor nestes corredores, nestas salas... enfim. Parabéns! 

Estudantes do curso de Música da UEL ocupam mais um prédio do CECA, e somam-se aos já ocupados estudantes do curso de Artes Cênicas. Na foto, os dois cursos em frente do prédio de Música. 

Cálice: de Chico às Ocupações

João de Carvalho
Primeiramente,
Fora Temer!

Chico Buarque é, pro Brasil, o mestre cancionista vivo mais importante nesse momento. No dia do golpe parlamentar que retirou Dilma da presidência, Chico Buarque foi citado tanto por quem votava à favor como por quem votava contra. Dentre suas várias canções que se tornaram hinos contra a ditadura, Cálice ocupa um posto central. 

Entenda mais sobre:
Os problemas da Lei da Mordaça 

Nas ocupações secundaristas do ano passado
Chico foi revisitado:


Esta versão é muito significativa, dentre outras coisas,
pela liberdade com que os alunos tratam Chico Buarque.
Não existe "o compositor", ele se dilui no ambiente horizontal...
isso é muito um ensinamento do hip-hop.
O ritmo que faz incendiar a turma é o funk,
a liberdade com que articulam o texto 
recortando-o, introduzindo citações
chamam Vandré
todas essas vozes lado a lado 
com a consciência destes jovens.

Essa homenagem não é uma simples homenagem;
é quase um passar de bastão
da reflexão atual sobre o Brasil
da clássica canção popular pro rap e o hip-hop. 

Tanto que aqui ele só contribui
lado a lado novamente
cantando versos de outro compositor
do jovem Dani Black:


Bem, 
o papo não tem fim
estamos de GREVE mesmo
estamos OCUPANDO mesmo
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Não à PEC 241! Não à MP 746!

 
 
 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Ocupar e Resistir, contra o desmonte da Educação!

João de Carvalho

Colégio Vicente Rijo. O maior de Londrina e segundo maior do estado. Foto Gustavo Carneiro.


No dia 6 de outubro eu avisava os amigos e alunos que no Paraná já estávamos com 20 escolas ocupadas. No dia 7, jovens secundaristas ocuparam o primeiro colégio em Londrina. Foi o Albino Feijó Sanches, na ZS, já desocupado por mandato judicial. Porém o número de escolas ocupadas já passa de trinta, só em Londrina. No estado do Paraná, que está com o movimento de ocupações mais elevado do país, a conta passa de 850 escolas. Número bem maior que as 198 escolas ocupadas no estado de São Paulo no final do ano passado contra as medidas de Geraldo Alckmin. Hoje, dia 24 de outubro, estamos iniciando a terceira semana de ocupações e a segunda semana de greve dos professores. Mas as pautas, infelizmente, ainda não são as mesmas. Os estudantes estão mobilizados contra as MP 746 e PEC 241 (que afeta também a saúde e a assistência social por 20 anos) e gritam ao fundo destes enfrentamentos o brado Fora Temer! Os professores, nem todos é claro, não gritam com convicção nem o Fora Richa! Eles murmuram mais assim: Richa Caloteiro!

Esse é o contexto de escuta, ok!?
Dá o play:





Enquanto pedalava pra ir dar aula nos colégios ocupados sempre me vinha esse refrão:
"O-cu-par e resistir, ocupar e resistir. 
O-cu-par e resistir, ocupar e resistir."

Se trata da canção dos estudantes Lucas Penteado (19) e Fabrício Ramos (17) com os músicos produtores Rodolfo Krieger e Duda Machado.

Ocupar e Resistir

Letra: Koka e Fabricio Ramos

Salve família
Secundarista na voz
Vai segurando
De São Paulo pro mundo
A rua é nossa
Você tem sede do quê?
Eu quero outra escola
Não mexe com quem tá quieto

Acordei olhei pro lado
Vi manifestação
E do outro lado vi
Uma pá de ocupação
Enquanto uns gritavam felizes
É campeão
Outros apanhavam e lutavam
Pela educação
Política desinteressante
Causada pela corrupção
Estigma digna indignação
Qual seria o tema do
Debate em questão
Gol da Alemanha
Ou senador no mensalão
Suor cansaço
Causado pela exaustão
Fome e morte
Causada pela ambição
Enquanto nas ruas
O que se vê é opressão
Auto opressão
E na mídia
Alienação
E quem será o culpado em questão
Aquele que é eleito
Ou aquele que
Vota na eleição

Direita tropa de choque
Em cima o governo fascista
Esquerda argumentação
Embaixo secundarista (2x)

Ocupar e resistir (8x)
Quantos lutaram
Gritaram faleceram
Mais de mil?
Aqui vai virar o Chile
Ou o Chile virou o Brasil?

Memorável
Luta consciente
E coincidentemente incrível
E é difícil e dói saber
E descobrir
Que a única coisa
Que cresce mais que a inflação
É o genocídio
Só pra deixar bem claro, irmão
Não tem arrego
Você fecha a minha escola
E eu tiro o seu sossego.

Salve família
A rua é nossa

Ocupar e resistir (25x)

Os secundaristas mobilizados lutam pela possibilidade de sonharem. 
No caso, agora, isso se mostra no enfrentamento com as MP e PEC mencionadas.
Mas eles não são ingênuos e sabem que a luta vai além.
Estou torcendo para os professores (re)aprenderem cada vez mais com este processo
com estudantes que nos mostram claramente 
a força que temos quando acreditamos nos sonhos e na poesia. 

Isso o hip-hop ensina a todo momento, 
e não é por acaso que a forma de expressão utilizada pelos secundaristas é um RAP. 
Até o Chico Buarque passou a bandeira pro RAP,
mas isso eu falo mais num outro post.
 #OCUPAReRESISTIR